Se esses papéis foram uma trincheira contra juros altos, para o próximo ano, a história muda de figura: o alívio monetário, a tributação de dividendos e as eleições exigirão seleção criteriosa desses nomes
O setor financeiro se transformou de porto seguro em motor das carteiras de renda variável em 2025. As cinco ações mais negociadas do segmento respondem por 8,4 pontos percentuais da alta de quase 34,5% do Ibovespa no ano (até 3 de dezembro). No mesmo período, o Índice Financeiro (IFNC), que reúne apenas os papéis desse setor, saltou mais de 49%.
Contudo, os bancos chegam ao fim do ano em uma bifurcação. Se nos últimos meses o setor foi uma “trincheira” para os investidores da bolsa contra juros altos, a tese para 2026 muda de figura: a queda da Selic, a tributação de dividendos e as eleições presidenciais exigirão uma seleção criteriosa.
“O entendimento de que bancos são defensivos pode levar investidores a saírem do setor atrás de empresas sensíveis a juros”, diz Larissa Quaresma, analista da Empiricus, que associa a potencial saída dos papéis a uma visão reducionista sobre esse mercado.
O setor também enfrenta escrutínio após o colapso do Banco Master, cuja liquidação extrajudicial trouxe temores sobre a saúde do sistema. Mas analistas descartam risco sistêmico – o que não é dizer que os bancos não pagarão essa conta.
“Embora impacte o sentimento de curto prazo e a reputação, os grandes bancos possuem controles de risco muito superiores. A recomposição do FGC [Fundo Garantidor de Créditos] pode exigir provisões pontuais, mas não compromete os fundamentos”, pondera o analista-chefe da Terra Investimentos, Régis Chinchila.
Sobre os proventos (leia-se dividendos e juros sobre capital próprio), a visão é de continuidade, apesar da tributação. O Itaú, por exemplo, antecipou dividendos referentes a 2025 para dezembro deste ano, para aproveitar a isenção fiscal, o que deve reduzir matematicamente o índice de rentabilidade do banco em 2026, mas não altera a sua política de distribuir entre 50% e 60% do lucro.
O rali continua
Em 2025, a performance do setor foi estelar: o BTG subiu mais de 110%. Mas foram as instituições financeiras mais tradicionais que carregaram o piano, com maior contribuição para o desempenho do Ibovespa. O maior em peso no índice entre os ativos do segmento, a ação do Itaú avançou mais de 61%, enquanto a do Bradesco aparece na sequência, com alta de 78%.
Em Nova York, o setor também não fez feio: Inter saltou 115%, enquanto XP e Nubank acumulam cerca de 70% de valorização.
Para analistas, há fôlego para mais em 2026, mas os vetores mudam: sai a defesa da margem financeira e entra a aposta na qualidade do crédito.
A Terra Investimentos projeta um rali moderado, ancorado na Selic caindo para 12,5% até o fim do ano e expansão de crédito de até 8%. “Isso alivia custos, estimula consumo e reduz inadimplência“, avalia Chinchila.
Acontece que esse movimento não será uniforme. Quaresma chama a atenção para os diferentes graus de sensibilidade a juros dentro do setor bancário. Por isso, alguns nomes caíram na zona de risco.
É o caso do Banco do Brasil, que vive uma situação singular. Com a única ação do setor no vermelho em 2025, apesar de estar com múltiplos de preço descontados, o banco enfrenta ventos contrários operacionais e políticos.
A inadimplência no agronegócio, setor vital para a instituição, segue alta e só deve apresentar melhora consistente a partir do segundo trimestre de 2026. “A própria diretoria do banco sinalizou na teleconferência de resultados que espera um retorno sobre o patrimônio [ROE] próximo a 15% no próximo ano. O que não é muito diferente do que vão entregar em 2025, mas já é uma melhora substancial em relação aos últimos trimestres“, reflete Quaresma.
Na frente de distribuição de dividendos, o Banco do Brasil já sinalizou que deve manter no próximo ano sua política de pagamento de 30% dos lucros, inclusive referente ao resultado de 2026. A questão, portanto, é qual será o tamanho do bolo que o banco terá para dividir.
A analista da Empiricus também alerta para o impacto das eleições presidenciais, já que o Banco do Brasil fica sujeito à volatilidade das pesquisas: cenários de intervenção derrubam o papel, enquanto acenos de privatização ou eficiência o impulsionam. A recomendação da casa para a ação é neutra.
Os favoritos
Para os bancos tradicionais em geral – que têm parte do patrimônio investido em títulos do Tesouro de vencimento no curto prazo – , embora o corte da Selic costume pressionar a rentabilidade do capital próprio, o ciclo de 2026 traz compensações importantes que invertem essa lógica. A principal delas é a redução da inadimplência.
Além da melhora no crédito, essas instituições tendem a capturar valor na tesouraria, explica Quaresma. Com a queda dos juros futuros, os títulos de renda fixa que compõem o patrimônio dos bancos se valorizam – reflexo de um movimento conhecido como marcação a mercado, que mostra os preços dos ativos no mercado secundário. Para a Empiricus, como Bradesco e Santander dependem mais dessa linha de receita do que seus pares, a virada de ciclo tende a ser mais positiva para suas ações.
Outra frente favorecida é a do custo de captação. Juros menores barateiam o dinheiro que as instituições tomam emprestado para financiar seus clientes, o que beneficia fintechs e bancos voltados ao crédito massificado. É neste contexto que o Nubank aparece como destaque.
“O Nubank tem um custo de captação que fica entre 85% e 90% do CDI [índice de referência para a renda fixa que segue de perto a Selic]; com a taxa básica caindo, esse benefício se reflete na margem de lucro“, diz Quaresma. A Empiricus tem indicação de compra para o ativo.
A aposta é corroborada pela equipe do Itaú BBA, que mantém a ação entre os destaques de recomendações. Em relatório, o estrategista de ações da casa Igor Caixeta aponta, ainda, que a isenção de imposto de renda para faixas salariais mais baixas libera renda disponível para as famílias, beneficiando a base de clientes do Nubank e abrindo espaço para venda de produtos como crédito consignado.
Ainda assim, o Itaú permanece como escolha defensiva e unânime entre as casas de análise pela consistência de entrega do banco. A Terra Investimentos projeta um preço-alvo para ação do banco de R$ 47 (potencial de alta de 11%) e retorno em dividendos próximo de 7% em 2026.
Já o BTG Pactual corre em raia própria: a avaliação é de que o banco ganha nas duas pontas com o alívio monetário, mantendo solidez no crédito e acelerando as receitas de banco de investimento com a reabertura do mercado de capitais.
Pontos de atenção
Se Itaú e BTG operam em velocidade de cruzeiro, Bradesco e Santander dividem opiniões. Eles negociam a preços atrativos, mas carregam o peso de serem, em certa medida, teses de reestruturação dos negócios.
A Terra Investimentos vê oportunidade de ganhos com o papel do Bradesco, citando múltiplos descontados e um rendimento de dividendos projetado de 7,5%. “A disciplina de custos e o ROE próximo de 15% sustentam essa tese“, diz Chinchila.
Já a Empiricus mantém recomendação neutra para ambos, por a equipe achar que, mesmo com os juros em queda, ainda não é o momento de priorizar esse tipo de risco na carteira de ações.
Mas o setor, como um todo, pode perder parte do apelo tradicional pela tributação sobre dividendos, reconhecem os especialistas. “Porém, esperamos que a distribuição de lucros continue robusta, especialmente em bancos com disciplina de capital e payout [política de distribuição de lucros] consistente, casos do Itaú e do Bradesco”, avalia o estrategista-chefe.
